Títulos


        Na cidade mais quente que já estive na vida, num lugar distante de povo acolhedor, ouvi as palavras de um homem que tinha o coração em chamas. Creio que eu poderia ficar dias e dias a ouvi-lo, parecia que enquanto ele falava um rio de humildade, compaixão, amor, servidão inundava o ambiente, a ponto de fazer nossos olhos inundarem e transbordarem de lágrimas. As palavras eram mansas, calmas, ele até falava pausadamente; mas ao sair de sua boca me atingiam com violência, minha mediocridade humana estava sendo o alvo. Sentia-me bombardeada: minhas desculpas, meu conformismo, meu achar orgulhoso de que já fazia o bastante, minha rasa compaixão estavam em declínio dentro de mim, tudo parecia ruir. 
        A vida daquele homem fazia uma concordância com suas palavras, que as tornavam poderosas. Ele não era um super herói, era um senhor inteiramente humano, de cabelos e barbas brancas, pele avermelhada pelo sol, um nordestino daqueles que faz parecer pra você que a vida é o que há de mais encantador, e não negava que para ele a vida era mesmo um encanto. Seu coração era inteiramente jovem, sua disposição e vigor mesmo com a idade avançada eram de inspirar e animar até o mais jovem que houvesse naquele lugar. Éramos cerca de trinta pessoas o ouvindo, e creio que o sentimento era unânime: não queríamos que aquele homem fosse embora! Sua aula da tarde já estava a acabar, vez por outra eu fitava minha amiga ao lado para me certificar de que não era a única em lágrimas simplesmente por ouvi-lo, todas as vezes que olhei foi contestado que de fato não era.
        Terminada a aula da tarde, procurei-o enquanto ele arrumava algumas de suas coisas na sua mochila de lona, companheira de suas peregrinações. Interpelei-o:
- Pastor Carl..
Mal consegui terminar de pronunciar seu nome e ele me interrompeu:
- Do que me chamou?
- Pastor Carlinhos. - respondi com um certo receio.
- Ah sim, então, pode dizer o que você tem a dizer, aluna.
Ele falou a palavra aluna com uma certa entonação, e eu demorei um pouco a entender o que eu tinha dito de tão errado assim. Ele de fato era um pastor, que aliás, rodava não apenas sua região mas o Brasil todo a falar de suas peregrinações e experiências com missões.. Fiquei mesmo sem compreender o erro, até que ele notou minhas sobrancelhas levemente levantadas e resolveu esclarecer.
- Qual o seu nome? - disse ele me fitando com um olhar gentil.
- Lis.
- Isso é tudo que você é. - Disse com um sorriso generoso como se eu fosse a pessoa mais encantadora do mundo naquele momento. - E eu sou o Carlinhos, isto é o que sou. Não precisa me chamar de pastor, é só um título.
Minha mente pareceu fervilhar, um senso de valor a respeito de quem eu era (simplesmente por ser) sem precisar de títulos parece que veio como um estalo. A vida e as palavras daquele homem não eram fascinantes porque ele tinha estudado muito (embora o tenha feito), porque tinha feito muitas coisas por outras pessoas (embora isso pudesse resumir sua vida), mas simplesmente porque ele era Carlinhos, porque ele tinha descoberto seu valor no Eu Sou, e então agora era uma responsabilidade dele fazer outras pessoas serem tratadas pelo valor que merecem simplesmente por ser alguém.
A conversa seguiu, depois de sua resposta eu dei apenas um sorriso e continuei as perguntas que tinha a fazer sobra a aula. Mal sabe ele que aquele diálogo inicial me roubou o sono. Dias a fio pensando em como algo tão simples faz tanto sentido. Geralmente quando conhecemos alguém perguntamos o seu nome para fins de comunicação, e minha descoberta era de que isto estava errado. O que uma pessoa tem de mais importante a me dizer sobre ela, não é o que estuda, como trabalha, qual sua religião ou cargo, mas quem ela é. 
         Quem eu sou? Era só isso que o Carlinhos queria saber para dialogar comigo me tratando como alguém de extremo valor e importância. Era só isso que o Mestre precisava saber para abraçar o excluso, e curar o enfermo. Era só isso que eu precisava saber para aprender a amar. Rico, pobre, doutor, leigo, judeu, cristão.. tudo que eu precisava era aprender a ver além das roupagens, além da maquiagem, além dos títulos ou falta deles, além da conta bancária e modo de devoção religiosa. Ser-humano, percebi ali na definição que não é necessário mais nada, simplesmente é, e isso é tudo que preciso para ter motivos de amar. De toda sua aula, aquela lição sem dúvidas me foi a mais importante.

Lis Guedes, janeiro de 2015

Imagem: Lis Guedes - Chapadinha/PI

8 comentários:

  1. Entender o "valor" mais do que a "utilidade" é sem dúvida o maior desafio pra nós como sociedade, que definimos muitas vezes "pessoas" como Recursos humanos. Tô adorando ler-Te pelas palavras. Obrigado.

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    1. Obrigada você, amigo, pela honra de tê-lo lendo!

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  2. não obstante Temos um Deus tão grande que se importa conosco e nos ama e ouve da mesma maneira que soa muitas vezes constrangedor, Ele nos admoesta de um jeito tão amável através de pessoas assim que até parece brincadeira.... Lindo Lis que Deus continue aguçando seus sentidos pra perceber o que Ele tem feito e possa transmitir pra gente :) um abraço

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    1. Muito obrigada Felipe, extremamente motivada a prosseguir escrevendo diante de palavras e testemunhos assim..

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  3. Oi Lis, vc é de Macaé? Eu sou. Não sei como cheguei aqui, mas amei. Esse Carlinhos seria o Carlos Queiroz? Pq ele é mesmo um mestre e depois de ouvi-lo em Campinas minha perspectiva cristã nunca mais foi a mesma. Caso não seja ele, não importa. O importante é que você aprendeu algo de valor e o melhor: compartilhou. Bjs Camila Vaz

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    1. Sim, sou de Macaé! É o Carlinhos de Queiroz, feliz que o tenha identificado! :) Muito obrigada pelas palavras!

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